segunda-feira, 7 de março de 2011

A ESCOLHA DO PROFESSOR

Por Carlos Alberto de Barros Santos (*)
Muitos cadáveres chegam semanalmente ao Laboratório de Anatomia da Faculdade de Medicina da UFMG. Na maioria são pacientes ligados a  hospitais  à Faculdade ou a  outras instituições, como o Hospital das Clínicas ou ao Hospício de Barbacena. 
A  rotina do Departamento de Anatomia é de encaminhar tais corpos aos tanques de formol, após o que serão distribuídos às mesas do  Laboratório de Anatomia, onde serão escarafunchados por calouros das áreas da saúde.
Tudo bem, viva a rotina organizada. Só que na última sexta-feira lá chegou o corpo sem vida do professor Herbert Magalhães Alves, que por livre e desimpedido desejo optou que o seu cadáver, fosse destinado àquela instituição.
O professor Herbert era meu íntimo amigo e sobre a sua decisão de doar o corpo para a Faculdade tivemos longas , acirradas e repetidas discussões em nossos encontros de todos os sábados.Dizia eu: olhe, professor,não há qualquer sentido em doar um corpo morto visando ao aprimoramento da medicina, uma vez que ele nada pode oferecer ao conhecimento além das estruturas anatômicas, estas sobejamente conhecidas há milênios. Dizia-lhe mais : - Já ouviu falar no Testut ? Mas ele relutava: - Meu corpo pode servir de instrumento para o progresso da Medicina.- Que bobagem!,  relutava eu, um homem morto para nada serve. E,ainda mais, não há deficiência no fornecimento de corpos para o ensino.
Só que o meu amigo Herbert sempre foi um grande teimoso, um homem de opiniões irreversíveis .E,assim, o seu corpo sem vida,e sem nenhum retoque,  um corpo que habitou uma excepcional figura humana,foi velado ,em tempo extremamente restrito, na sala de autópsia da Disciplina de Anatomia Patológica da Faculdade de Medicina da UFMG.
Dirão os teóricos da objetividade: é isso mesmo; a vida nada vale. Sei bem disso tudo, como sei.E lembro-me  do  verso magistral de Manuel Bandeira: “ a vida é uma agitação feroz e sem finalidade/a vida é traição”. Dessa maneira , não há que confiar nela.
Mas como é terrível finalizá-la embrulhada num lençol dentro de um anfiteatro de Anatomia Patológica.
Foi duro!
(*)Médico e escritor.

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