segunda-feira, 14 de março de 2011

Sou um corpo ou tenho um corpo?

Por Alcione Araújo.
Publicado no Estado de Minas

Ia escrever sobre o feriadão carnavalesco, que passei cercado de tanto afeto de amigos, que se deu o prodígio de ter trabalhado menos e escrito mais. Ou o terremoto-tsunami japonês, com 8,9 pontos na escala Richter que me tocou. Porém, a mensagem da professora Myrian Naves mudou bruscamente meu assunto.

Morreu o professor Herbert Magalhães Alves, que não conheci, mas cuja visão do post mortem diz do seu espírito nobre e da honra que seria conviver com ele. Catedrático de química orgânica da Escola de Engenharia da UFMG, foi um pesquisador e apaixonado homem de ciência, avesso à burocracia dos órgãos de ciência do país. Tido como taciturno e discreto, era admirado por alunos, discípulos, colegas, e sua sucessora, professora Dorila P. Veloso, a quem tampouco conheço, que o reverenciou em comovente nota biográfica, na qual lembra, seu arriscado empenho em preservá-la da fúria repressora da ditadura militar.


Merecedor de todas as homenagens e honrarias, uma vez morto, o professor Herbert não teve velório, exéquias, sequer sepultamento. Se lhe ocorre a ideia de desamor ou ingratidão é mesmo com você que a atitude do mestre quer dialogar. Ele decidiu doar seu corpo à Faculdade de Medicina, para ser usado em aulas e pesquisas. Um homem de ciência até a hora final.

Aprende-se anatomia, essencial à formação do profissional de saúde, com animais, dissecação de corpos humanos, modelos plásticos e simulações informatizadas. Mas nada substitui o corpo humano – como entendeu o professor Herbert. Doar o corpo contribui não só para melhorar a formação, como para desenvolver técnicas cirúrgicas mais eficientes e menos invasivas. A legislação brasileira prevê, com objetivo científico ou altruístico, a disposição gratuita do próprio corpo, no todo ou em parte, depois da morte. E corpos esquecidos podem ser usados em ensino e pesquisa. No entanto, a oferta de corpos diminui e cresce o número de estudantes – falta de solidariedade social. Na Holanda, há fila de espera para doar o próprio corpo para aplicações médicas.

Aos poucos, cresce a doação de sangue e órgãos, não a de corpos. Além da memória remota de profanações de túmulos e cadáveres, a resistência à doação do corpo tem origens emocionais, culturais, na ignorância, descaso e crenças religiosas. Mas também é complexa a percepção que se tem do corpo como lugar da vida e da identidade pessoal. Um sentimento de propriedade inalienável passa pela inconsciente relação entre o ser e o corpo, como se a morte pudesse ser evitada para atender o desejo de imortalidade do ser. Como diz Phillippe Ariès (História da morte no Ocidente) não apenas recalcamos a morte, mas a ocultamos como nunca na história. Os extremos se unem para inibir a lucidez: de um lado a banalização da morte, do outro o culto e sacralização do corpo após a morte, entre outras questões religiosas.

A negação da morte, a valorização da vida graças em parte ao seu prolongamento pela medicina, e a dimensão religiosa, de crenças, convicções e superstições tem inibido a reflexão e o indispensável enfrentamento do fim. O professor Herbert Magalhães Alves deu notável exemplo de solidariedade social, confiança na ciência, oferecendo seu nobre corpo ao avanço da medicina, num gesto de gratidão à vida e amor ao próximo, pelo qual agradecemos.

Trata-se, afinal, de saber se sou um corpo, ou se tenho um corpo, velho dilema filosófico revisitado por Habermas, e que depende do entendimento que se tenha de corpo e de ser.

Um comentário:

  1. Caros,

    Ao saber da morte do professor Herbert Magalhães Alves através de amigos, numa pequena homenagem, enviei a notícia a amigos que, de antemão, sabia eu, dividiriam comigo a emoção com que li a nota sobre seu falecimento. Gostaria de tê-lo conhecido em algum momento. Parabéns pela iniciativa de criação blog.

    Myrian Naves

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